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27/02/2004 21:12
voltei, recife...
Ótimo, meu carnaval alternativo. Felizmente, pude reencontrar amigos, conversar, assistir filmes, falar coisas sem qualquer intenção, bobagens
Estou mais leve. Até minha famosa dor de consciência de quando vou para casa e não estudo nada foi atenuada. A verdade é que eu estudei bem pouco, direito constitucional. Mas fui pra casa da tia Sil e ajudei a fazer uns pareceres, o que me deixou menos desconsolada, pois aprendi um monte de coisas novas.
Até meu lado artista está diferente. Consegui escrever alguma coisa diferente sobre o amor, menos irônico, ou menos fatal. Não que eu tenha mudado o que eu penso a respeito, mas passo a pelo menos compreender o ponto de vista de quem pensa diferente de mim. A pobre da Mônica vive dizendo que eu preciso falar de amor. Acho que vou oferecer esse meu texto a ela e a Tia Sil, que vivem tentado me convencer de que o amor não foi invenção dos românticos, que ele tem existência real. Então pensei em tudo que elas me disseram e no famosíssimo poema de Pessoa, sobre as irremediavelmente ridículas cartas de amor, e escrevi o que segue:
-Ah! O sorriso dela! Ela parece que sorri pelos olhos, pela boca, por todos os poros! Até os cabelos dela parecem sorrir para mim! Ela tem o sorriso dos plácidos, dos calmos, o sorriso dos que são imunes aos problemas os que jamais têm problemas.
O homem dizia isso ao passarinho que estava empoleirado na árvore em frente à sua janela, na apartamento que há dez anos ocupava sozinho segundo andar.
O passarinho, que nada entendia das paixões humanas, continuava impassível. Mas permaneceu ali, parado, espiando como a uma paisagem aquele homem que ora suspirava, ora se contorcia.
Há alguns dias se operara uma mudança súbita naquele homem calado, só e sem grandes perspectivas. Ele viu a luz e a luz era ela.
Desde então, passava horas ao espelho: penteava os cabelos em todas as posições, esperando uma em que cada cabelo assumisse naturalmente sua posição. Passou, também, a cuidar melhor de suas roupas: engomava as suas calças e camisas, e tentava (em vão) combiná-las.
E, principalmente, se perfumava. Usava perfume, muito perfume. Queria que todos sentissem seu cheiro e sua nova condição de amante. E perfumava tudo ao seu redor: o sofá, os livros, os lençóis, os encartes dos discos. Sua casa tinha o cheiro exagerado dos que amam.
Estava tão ébrio de paixão que esquecera-se, até, da antiga resolução de permanecer só, para toda a vida. Mas justificava-se, a si mesmo, que aquele era o início de uma nova vida. Ela era uma nova vida.
E ele já era, em uma ou duas semanas, um novo homem. Mas como fazer com que ela participasse daquele momento?
Já há dez anos que não se apaixonava. Levava uma vida comum de solteiro tinha mulheres, mas amor, daquele do qual se morre, este ele juro que não existia quando sua mulher disse que ninguém amaria alguém ridículo como ele.
-E se ela também me achar ridículo?
(...)
-É melhor que tudo fique como está.
(
)
-Fala alguma coisa, passarinho!!!
E foi nessa hora que o passarinho voou.
Eu sei, isso não é romântico. Mas parto basicamente da premissa de que o amor é um sentimento eminentemente unilateral. Eu acho que essa história tem continuação. Mas ainda tenho de decidir acerca da bilateralidade desse caso específico. O amor do homem é pleno, mas ainda preciso criar a mulher. Gostaria de sugestões.
-Comentário a um comentário num blog que não é meu-
Eu explico: quando o Salomão pôs no blog dele um trecho do post do dia 02 de janeiro, o Dorian (que, aliás, já veio aqui me visitar) comentou que essa defesa da língua errada do povo, às vezes extrapolava. Concordo, mas em parte. Bandeira, por exemplo, defendia o respeito, mas jamais disse que era mais certo ou mais genuína a linguagem popular. Penso assim. Não posso escrever com essa linguagem porque ela não me pertence, mas também não posso negar o lírico ou o poético ou qualquer tipo de conteúdo por causa da forma ou da linguagem. Afinal, data venia, alguns poemas parnasianos, por exemplo tinham uma linguagem perfeita, mas conteúdo
nenhum, né!? Em resumo, eu concordo com o Dorian: às vezes o respeito vira culto e se torna falso e desnecessário. Porém ressalvo que a falta do respeito é temerária.
Vi alguns visitantes novos. Obrigada. Provavelmente no domingo farei minhas visitas aos amigos meio abandonados.
Vi também o retorno do Mário, que me deixou muito feliz. TOMARA QUE TU TEJA LEGAL. Pelo menos uns 85%. Já me considero tua amiga por osmose. Beijo.
EU OUÇO MÚSICA
Eu ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...
Eu ouço música como quem está morto
e sente
já
um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá...
Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!
Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.
(MÀRIO QUINTANA)
enviada por juspoeta
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