 |
14/03/2004 19:27
Mais uma data para comemorar
Pois é! Parece que eu só venho aqui pra falar de datas comemorativas. Tô parecendo uma agenda de estudante... Mas é assim mesmo. tenho pouco tempo. Ainda bem que me sobra algum pelo menos para as datas comemorativas...
E agora!? Falar sobre poesia? Como? Não, acho que não. A poesia é auto-explicativa, não se interpreta, ao menos não generalizando-a. Melhor que ela fale por si e expique ela mesma aquele que a forjou, o poeta.
FLORBELA ESPANCA
Ser poeta
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim...
É condensar o mundo num só grito!
É amar-te assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente.
(Florbela Espanca)
DRUMMOND
Brinde no banquete das musas
Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia que recomeças
de outro mundo, nova vida.
Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.
Poesia, sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.
Azul, em chama, o telúrio
Reintegra a essência do poeta,
E o que é perdido se salva...
Poesia morte secreta.
(Drummond)
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
DISPERSÃO
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje.
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim ontem.
(O domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os domingos de Paris:
Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família.)
O pobre moço das ânsias
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.
A grande ave dourada
Bateu asas para os céus
Mas fechou-as saciadas
Ao ver que ganhava os céus.
Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.
Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projeto:
Se me olho a um espelho erro-
Não me acho no que projeto.
Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a lama amortalhada
Sequinha, dentro de mim.
Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.
Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi
mas recordo
A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem da tarde doirada.
(As minhas grandes saudades
São do que eu nunca enlacei.
Ai como tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!
)
Eu sinto a minha morte-
Minha dispersão total-
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.
Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo
E todo o azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.
Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas
Sou amor e piedade
Em face dessas moa brancas
Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar
Ninguém mais quis apertar
Tristes mãos longas e lindas
Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal
Que me faltou afinal?
Um elo; Um rastro?
Ai de mim!
Desceu-me nalma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.
Álcool dum sono outonal
Me penetro vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.
Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço
Castelos desmantelados
Leões alados sem juba...
(Mário de Sá Carneiro)
MÁRIO QUINTANA
OS POEMAS
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo,
como de um alçapão.
Os poemas vêm, os poemas vão,
não têm pouso ou porto,
alimentam-se
um instante em cada par de mãos
e partem.
O que eles te dão
é o inesquecível, o maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
(Mário Quintana)
ÁLVARES DE AZEVEDO
Um cadáver de poeta - canto II
Morreu um trovador! morreu de fome...
Acharam-no deitado no caminho:
Tão doce era o semblante! Sobre os lábios
Flutuava-lhe um riso esperançoso;
E o morto parecia adormecido.
Ninguém ao peito recostou-lhe a fronte
Nas horas da agonia! Nem um beijo
Em boca de mulher! nem mão amiga
Fechou ao trovador os tristes olhos!
Ninguém chorou por ele... No seu peito
Não havia colar nem bolsa doiro:
Tinha até seu punhal um férreo punho...
Pobretão! não valia a sepultura...
Todos o viram e passavam todos.
Contudo era bem morto desde a aurora.
Ninguém lançou-lhe junto ao corpo imóvel
Um ceitil para a cova!... nem sudário!
O mundo tem razão, sisudo pensa...
E a turba tem um cérebro sublime!
De que vale um poeta?... um pobre louco
Que leva os dias a sonhar?... insano
Amante de utopias e virtudes
E, num templo sem Deus, ainda crente?
A poesia é decerto uma loucura:
Sêneca o disse, um homem de renome.
É um defeito no cérebro... Que doUdos!
É um grande favor, é muita esmola
Dizer-lhes bravo! à inspiração divina...
E, quando tremem de miséria e fome,
Dar-lhes um leito no hospital dos loucos...
Quando é gelada a fronte sonhadora
Por que há de o vivo, que despreza rimas,
Cansar os braços arrastando um morto,
Ou pagar os salários do coveiro?
A bolsa esvaziar por um misérrimo,
Quando a emprega melhor em lodo e vício? ...
E que venham aí falar-me em Tasso!
Culpar Afonso dEst um soberano,
Por não lhe dar a mão da irmã fidalga!
Um poeta é um poeta: apenas isso...
Procure para amar as poetisas.
Se na França a princesa Margarida,
De Francisco primeiro irmã formosa,
Ao poeta Alain Chartier adormecido
Deu nos lábios um beijo... é que esta moça,
Apesar de princesa, era uma douda...
E a prova é que também rondós fazia.
Se Riccio, o trovador, teve os amores
Novela até bastante duvidosa
Dessa Maria Stuart formosíssima,
É que ela sabe-o Deus! fez tanta asneira...
Que não admira que a um poeta amasse!
Por isso adoro o libertino Horácio:
Namorou algum dia uma parenta
Do patrono Mecenas? Parasita...
Só pedia dinheiro, no triclínio
Bebia vinho bom... e não vivia
Fazendo versos às irmãs de Augusto.
E quem era Camões? Por ter perdido
Um olho na batalha e ser valente,
Às esmolas valeu. Mas quanto ao resto,
Por fazer umas trovas de vadio,
Deveriam lhe dar, além de glória,
E essa deram-lhe à farta! algum bispado?
Alguma dessas gordas sinecuras
Que se davam a idiotas fidalguias?
Deixem-se de visões, queimem-se os versos:
O mundo não avança por cantigas.
Creiam do poviléu os trovadores
Que um poema não val meia princesa.
Um poema, contudo, bem escrito,
Bem limado e bem cheio de tetéias,
Nas horas do café lido, fumando...
Ou no campo, na sombra do arvoredo,
Quando se quer dormir e não há sono,
Tem o mesmo valor que a dormideira.
Mas não passe dali do vate a mente.
Tudo o mais são orgulhos, são loucuras...
Faublas tem mais leitores do que Homero.
Um poeta no mundo tem apenas
O valor de um canário de gaiola...
É prazer de um momento, é mero luxo.
Contente-se em traçar nas folhas brancas
De algum Álbum da moda umas quadrinhas:
Nem faça apelações para o futuro.
O homem é sempre o homem. Tem juízo.
Desde que o mundo é mundo assim cogita.
Nem há negá-lo: não há doce lira,
Nem sangue de poeta ou alma virgem
Que valha o talismã que no oiro vibra!
Nem músicas nem santas harmonias
Igualam o condão, esse eletrismo,
A ardente vibração do som metálico...
Meu Deus! e assim fizeste a criatura?
Amassaste no lodo o peito humano?
Ó poeta, silêncio! é este o homem?
A feitura de Deus! a imagem dele!
O rei da criação!...
Que verme infame!
Não Deus, porém Satã no peito vácuo
Uma corda prendeu-te o egoísmo!
Oh! miséria, meu Deus! e que miséria!
(Álvares de Azevedo)
CASTRO ALVES
Mocidade e Morte
E porto avisto o porto
Imermo, nebuloso, o sempre noite
Chamado Eternidade.
Laurindo.
Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate.
Dante.
Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
Árabe errante, vou dormir à tarde
A sombra fresca da palmeira erguida.
Mas uma vez responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.
Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas.
Minh'alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas...
E a mesma vez repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: impossível!
Eu sinto em mim o borbulhar do gênio.
Vejo além um futuro radiante:
Avante! brada-me o talento n'alma
E o eco ao longe me repete avante!
O futuro... o futuro... no seu seio...
Entre louros e bênçãos dorme a glórial
Após um nome do universo n'alma,
Um nome escrito no Panteon da história.
E a mesma voz repete funerária:
Teu Panteon a pedra mortuária!
Morrer é ver extinto dentre as névoas
O fanal, que nas guia na tormenta:
Condenado escutar dobres de sino,
Voz da morte, que a morte lhe lamenta
Ai! morrer é trocar astros por círios,
Leito macio por esquife imundo,
Trocar os beijos da mulher no visco
Da larva errante no sepulcro fundo.
Ver tudo findo... só na lousa um nome,
Que o viandante a perpassar consome
E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem por braços uma cruz erguida.
Sou o cipreste, qu'inda mesmo flórido,
Sombra de morte no ramal encerra!
Vivo que vaga sobre o chão da morte,
Morto entre os vivos a vagar na terra.
Do sepulcro escutando triste grito
Sempre, sempre bradando-me: maldito!
E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
Quando a sede e o desejo em nós palpita...
Levei aos lábios o dourado pomo,
Mordi no fruto podre do Asfaltita.
No triclínio da vida novo Tântalo
O vinho do viver ante mim passa...
Sou dos convivas da legenda Hebraica,
O 'stilete de Deus quebra-me a taça.
É que até minha sombra é inexorável,
Morrer! morrer! soluça-me implacável.
Adeus, pálida amante dos meus sonhos!
Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!
Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga
Os prantos de meu pai nos teus cabelos.
Fora louco esperar! fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro a terra,
Por glória nada, por amor a campa.
Adeus! arrasta-me uma voz sombria
Já me foge a razão na noite fria!..
(Castro Alves)
MANUEL BANDEIRA
Desesperança
Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo.
Como dói um pesar em cada pensamento!
Ah! Que penosa lassidão em cada músculo
O silêncio é tão largo, é tão longo, é tão lento
Que dá medo
O ar, parado, incomoda, angustia
Dir-se-ia que anda no ar um mau pressentimento.
Assim deverá ser a natureza um dia,
Quando vida acabar, e astro apagado, a Terra
Rodar sobre si mesma estéril e vazia.
O demônio sutil das nervoses entra
A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra
Minha respiração se faz como um gemido
Já não entendo a vida e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.
Por onde alongue meu olhar de moribundo
Tudo a meus olhos toma um doloroso aspecto:
E erro assim repelido e estrangeiro no mundo.
Vejo nele a feição fria de um desafeto
Temo a monotonia e apreendo a mudança.
Sento que a minha vida é sem fim, sem objeto
-Ah! como dói viver quando falta a esperança.
(Manuel Bandeira)
CORA CORALINA
O cântico da terra
Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.
E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.
Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.
(Cora Coralina)
FERREIRA GULLART
Oswaldo morto
Enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um que se mistura à nossa vegetação tropical)
As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara à civilização do ócio.
O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional.
NOTA:
Fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswald de Andrade ajudou o crepúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954
(Ferreira Gullar)
MARIO DE ANDRADE
Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquisila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar de uma vez:
E só tirar a cortina
Que entra luz nesta escuridez.
(A Costela de Grão Cão - Mário de Andrade)
Isto
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir, sinta quem lê.
(Fenando Pessoa)
Pronto, acho que terminei. POderia (ou não) passar o resto do mês achando poemas lindos para pôr aqui, ms preciso dar uma lida na bíblia do positivismo jurídico (Teoria Pura do Direito, do meu guru Kelsen).
Só faltou dizer que hoje é aniversário do meu companheiro de Faculdade, o Castro Alves, daí ser dia da poesia, a data que cá estou a comemorar.
Muitos rules beijos para todos.
enviada por juspoeta
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|
Como
diz a S�bia Dona Maria da Batata frita, do
ponto de �nibus:
N�o
me inveje! Trabalhe!
Clique e fa�a um blog pra voc� no BLIG!!!!
Depois � s� ter boa sorte e muita paci�ncia! |
|